domingo, 12 de outubro de 2014

Amor Fugaz - Releitura da Lenda do Boto



  Era uma noite escura, muito mais escura do que as normais, nem a Lua dava o ar de sua graça. Observava tudo isso de cima da minha árvore favorita, com os troncos retorcidos que me ajudavam a chegar mais facilmente ao topo, me dando uma vista privilegiada do que acontecia a minha volta.
  Meus pais estavam dormindo na nossa oca, a maior que tinha na região, privilégio adquirido por nosso alto status social, família do Cacique, qual menina não gostaria de estar no meu lugar?
  Acabei de ser iniciada, aprender os segredos das mulheres e todo aquele convincente blá blá blá de ensinamentos, não que não fosse importante, eu só não estou me sentindo muito bem hoje. Noite muito quente, palavras muito fortes, novamente desobedeci meu pai, novamente fui castigada com sua irá. Não que eu tire a razão dele nisso, no final das contas eu nunca tenho razão.
  Como sempre a árvore é a minha melhor companheira, minha melhor amiga. A mãe natureza é a única que confia em mim. A única que não me diz se estou certa ou errada. Pareço uma criança choramingando, mas não tenho mais esse direito também. As pinturas feitas naquela caverna me lembram muito bem disso, me lembram muito bem do que posso ou não posso mais fazer.
  Minha vontade é sair correndo em direção ao rio, em direção a água doce e limpa, profunda, que vai sugar todas as minhas preocupações, toda minha dor e ódio. Só não sei qual o motivo, não sei como esses sentimentos ruins entraram no meu corpo, mas eles estão aqui e se fazem presentes, eles nunca mais vão sair de mim, ele me sujou, tirou a minha liberdade. Ele me encontrou na floresta, não se importou se eu queria ou não. Com aqueles olhos vermelhos, aqueles passos largos atrás de mim, aquela voz gutural. Nem sempre os antigos estão certos, nem sempre o amor e o charme que eles pensam existir é verdadeiro. Não fazemos tudo por amor e fascínio, as vezes a vida nos move pelo medo. Quase sempre pelo medo.
  Sinto uma pontada dentro de mim, como se algo estivesse me devorando por dentro, como se algo estivesse me manipulando a seguir, a ter ódio, a ter raiva de quem sempre cuidou de mim. Culpa daquele maldito ser, culpa daquele sorriso diabólico estampado no rosto tão belo, tão monstruosamente belo. Em completo contraste com aqueles braços enormes, aquelas unhas que arranharam a minha alma, tiraram toda a sanidade dentro de mim. Tento me lembrar pelas coisas mais simples.
  Meu nome é Iangá, filha do Cacique junto com Angá, minha irmã é a Suia e meu irmão, qual o nome do meu irmão? Começo a chorar, gritar, todos estão acordando, mas não consigo me controlar. Se eles descobrirem vão me mandar embora, vão me jogar para fora da aldeia, sem eira nem beira, sem nenhuma vontade de prosseguir. Eu quero contar para alguém, Acy talvez me ajudasse, finalmente consigo lembrar o nome do meu irmão. Ele sempre ajuda Suia, sempre. Preciso me controlar, parar de esfregar a mão nos ouvidos, parar de gritar, mas o mundo gira e tudo dói. Tudo nessa porcaria de mundo quer me levar para baixo, quer me enlouquecer. A culpa é desses malditos olhos vermelhos que me perseguem na floresta, nos sonhos e sempre que por algum motivo tolo eu fecho os olhos. A culpa é dele que desobedeceu as suas próprias regras por mim, por querer a mim.
  Os dias de confinamento acabaram, cerca de quatro noites atrás. Foi quando o espírito da floresta que me dominava na caverna finalmente me deixou sair, ele me aconselhou a passar a noite na caverna e sair logo cedo, ir embora quando o sol raiasse, mas para o meu azar não consegui. Para o meu azar a saudade da família e a vontade de estar nos braços de minha mãe me dominaram, me fizeram correr, fizeram com que eu pensasse como criança e não como a mulher que eu deveria ter me tornado. A mísera mulher que aquelas pinturas corporais deveriam me fazer enxergar. Pena que meus olhos só conseguem ver o que me dá na telha. O que tenho vontade.
  Saí correndo pela floresta, feliz, sorrindo, sentindo a terra nos meus pés e as folhas no rosto, não conseguia perceber como estava escuro, como estava mais escuro que o normal, nem aquela névoa me fez parar. Talvez desse tempo de voltar para a caverna se eu tivesse ao menos tido a inteligência de reparar que estava tudo quieto demais. E quando a natureza para de cantar é melhor se esconder. Melhor abrir um buraco no meio da terra e fingir que morreu ou você vai acabar morrendo de uma maneira ou outra.
  Nem a Lua estava presente, acho que esse foi o primeiro sinal que me fez sentir o medo, sentir a encrenca em que eu me enfiei. Não demorou muito pra o assovio começar, bem baixinho, até ser alto demais para eu conseguir superar. O desespero tomava conta de mim, sentei no chão e comecei a chorar. Não era nenhuma mulher, só uma criancinha que daria tudo para ter sua mãe por perto, ou melhor dizendo, a força dos braços decididos de seu pai, para a carregar e tirar de lá. Mas não foi isso que aconteceu, não, seria sorte demais para um ser tão ínfimo. O que viria seria muito pior.
  - Uma moça bonita não deveria andar pela floresta sozinha tão tarde da noite.
  Não sei quanto tempo ele estava me observando, mas quando levantei o rosto vi um homem lindo, sua pintura corporal era perfeita, seu corpo esculpido por Tupã. O sorriso era algo que nenhuma palavra poderia explicar, mas seus olhos eram traiçoeiros, muito traiçoeiros para um sorriso tão angelical. Mas o que realmente me chamou atenção foram seus cabelos molhados, ninguém em sã consciência iria no rio tão tarde da noite, ninguém que eu quisesse realmente encontrar sozinha na floresta. Então com uma leveza sobrenatural ele vem até mim e senta ao meu lado.
  - Eu poderia te levar até seus pais linda menina, poderia te dar o mundo se assim você me pedisse.
  O cheiro que vinha de sua pele era estranho, me fazia lembrar os dias que comíamos peixe dentro de casa. Podre. Podre demais para quem acabou de sair de dentro do rio. Meus músculos estavam retesados, eu deveria correr, mas algo me fazia congelar, algo não queria que eu levantasse.
  - Você não vai conversar comigo? É tão triste ser sozinho, queria tanto alguém para ficar comigo.
  Encostando sua cabeça no meu ombro sinto com mais força ainda aquele cheiro desagradável de peixe podre, o cabelo molhado escorre em mim e por mais estranho que pareça aquela água fria me queima, me trazendo de volta a realidade, trazendo à tona a minha tão sumida voz.
  - O que você quer de mim?
  - Conversar, quem sabe te convencer que deveria ficar comigo ao invés de voltar para sua família. Eles não sentiriam a sua falta afinal.
  Estou confusa, até que finalmente a ficha caí, até que finalmente eu me lembro dos meus ensinamentos, lembro daqueles dias duros dentro de uma rocha. E o sinal de alerta grita dentro de mim. Não ande sozinha na floresta a noite minha querida, não vá ao rio, ou o Boto pode te pegar. O boto pode te pegar... Com um solavanco tiro a cabeça dele de cima de mim e pronto, o feitiço está acabado, quando a Lua finalmente aparece no céu, tocando a pele daquela demônio, consigo ver sua verdadeira forma. Os olhos vermelhos, as mãos gigantes com unhas maiores ainda, os pés pequenos demais para as pernas grandes. Mas aquele sorriso angelical foi o que mais sofreu transformação, os caninos são gigantes, vão até o final do rosto dele, do cabelo encaracolado e negro sobrou apenas peixes demoníacos que saem no lugar. Todos eles querendo me devorar.
  - Menina boba, poderia ter tudo que quisesse mas preferiu a verdade. Preferiu negar um filho meu, agora vai morrer!
  Corro, grito e choro, mas corro muito mais pela floresta, ele está ao meu encalço, não faz força alguma, é um jogo divertido para o Boto demônio perseguir meninas pelo rio Amazonas, que triste fim, ao invés de ter um bebê vou ter um par de dentes cravado no meu corpo, vou virar comida de peixe no fundo do rio. Deveria ter ouvido minha mãe.
  Quando tudo fica quieto novamente sinto um alívio, como se finalmente tivesse conseguido enganar o meu perseguidor. A armadilha já tinha sido montada e como uma presa boba eu caí, ao olhar para frente, após uma pequena quantidade de árvores vejo o rio, escuto aquele assobio macabro novamente e lá está ele. Lindo como no começo, maravilhoso como um lindo índio deveria ser. Ele me estende a mão, sinal da minha última oportunidade.
  - Não tem como escapar, quando é escolhida nada nem ninguém pode te proteger, venha cá pequena Iangá, não vamos dificultar mais ainda as coisas para você.
  Vou em direção ao rio, enfeitiçada, aquelas palavras como a linda melodia dos Uruás que minha família costumava tocar. Estendo a mão e seguro firme no boto. Seguro firme no meu destino sem mais chorar. Não é pela beleza é pelo medo, pela dor. Pela vontade de fazer tudo aquilo acabar. Ele me deita nas margens do rio, quando percebo seu corpo já está sob o meu, forte e quente, o abraço da morte. A dor não demora a vir, aqueles velhos olhos vermelhos me encaram como se meu medo desse mais prazer, então desisto de tudo. Espero que tudo acabe logo. Que ele morra aonde está.
  - Boa menina, boa menina, boooa menina
  Cada vez mais embargada aquela voz me enoja, quero gritar, morder ele até que morra, mas tudo que consigo fazer é esperar, sentir o corpo dele encima de mim, sentir o vai e vem daquele demônio, daquele ser quente e forte que me dominou. Fecho os olhos, quando abro estou segurando o cabelo dele com força e ele ri, ri como um animal louco e ferido. Desprendendo-se de mim, me deixando sozinha a sangrar, mais uma vítima do Boto, mais uma vítima da fatalidade de passar próximo de um rio a meia noite e ser escolhida. Antes de sair ele me beija, algo com tanta ternura que nem consigo acreditar que veio de um monstro. Tarde demais, eu já te odeio. Quando acordo a única coisa que me espera é o calor do sol, me dizendo que acabou, que eu posso levantar e ir embora. Me lavo no rio, com medo dele me puxar para a profundidade da morte e com esperança ao mesmo tempo.
  Depois do estupro do boto tudo mudou, meu ódio e minha raiva e esse ser maldito que cresce dentro de mim, que me come por dentro. Que morra também. Morram todos. A árvore já não me deixa mais em paz, a árvore já não quer mais me ajudar e me segurar dos meus medos. A noite já está alta e eu volto pro rio, na esperança de encontrar meu agressor, na loucura de poder finalmente ficar com ele. Estou louca e esperando um ser demoníaco, mas eu quero ele de volta para mim. Quero o meu demônio particular.
  No rio está tudo silencioso, igual naquela maldita noite, é um alivio quando sinto as mãos quentes dele no meu ombro. Penso até em chorar, mas isso seria bobeira demais para um ser que não tem coração, ou que no final das contas não se importa.
  - Eu sabia que você iria voltar minha pequena menina.
  Dizendo isso ele me leva até o rio em seus braços, diz algumas palavras para a água, grita algumas coisas para a lua ao seu redor e me solta, sinto a água tomar conta de mim, sinto as mãos dele me afundando, abro os olhos e vejo ele perto de mim. Ele cumpriu a promessa, ele me levou para ser feliz, eternamente morta ao seu lado, eternamente podre dentro de mim.

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