Era uma noite
escura, muito mais escura do que as normais, nem a Lua dava o ar de sua graça.
Observava tudo isso de cima da minha árvore favorita, com os troncos retorcidos
que me ajudavam a chegar mais facilmente ao topo, me dando uma vista
privilegiada do que acontecia a minha volta.
Meus pais estavam
dormindo na nossa oca, a maior que tinha na região, privilégio adquirido por
nosso alto status social, família do Cacique, qual menina não gostaria de estar
no meu lugar?
Acabei de ser
iniciada, aprender os segredos das mulheres e todo aquele convincente blá blá
blá de ensinamentos, não que não fosse importante, eu só não estou me sentindo
muito bem hoje. Noite muito quente, palavras muito fortes, novamente desobedeci
meu pai, novamente fui castigada com sua irá. Não que eu tire a razão dele
nisso, no final das contas eu nunca tenho razão.
Como sempre a árvore
é a minha melhor companheira, minha melhor amiga. A mãe natureza é a única que
confia em mim. A única que não me diz se estou certa ou errada. Pareço uma
criança choramingando, mas não tenho mais esse direito também. As pinturas
feitas naquela caverna me lembram muito bem disso, me lembram muito bem do que
posso ou não posso mais fazer.
Minha vontade é sair
correndo em direção ao rio, em direção a água doce e limpa, profunda, que vai
sugar todas as minhas preocupações, toda minha dor e ódio. Só não sei qual o
motivo, não sei como esses sentimentos ruins entraram no meu corpo, mas eles
estão aqui e se fazem presentes, eles nunca mais vão sair de mim, ele me sujou,
tirou a minha liberdade. Ele me encontrou na floresta, não se importou se eu
queria ou não. Com aqueles olhos vermelhos, aqueles passos largos atrás de mim,
aquela voz gutural. Nem sempre os antigos estão certos, nem sempre o amor e o charme
que eles pensam existir é verdadeiro. Não fazemos tudo por amor e fascínio, as
vezes a vida nos move pelo medo. Quase sempre pelo medo.
Sinto uma pontada
dentro de mim, como se algo estivesse me devorando por dentro, como se algo
estivesse me manipulando a seguir, a ter ódio, a ter raiva de quem sempre
cuidou de mim. Culpa daquele maldito ser, culpa daquele sorriso diabólico
estampado no rosto tão belo, tão monstruosamente belo. Em completo contraste
com aqueles braços enormes, aquelas unhas que arranharam a minha alma, tiraram
toda a sanidade dentro de mim. Tento me lembrar pelas coisas mais simples.
Meu nome é Iangá,
filha do Cacique junto com Angá, minha irmã é a Suia e meu irmão, qual o nome
do meu irmão? Começo a chorar, gritar, todos estão acordando, mas não consigo
me controlar. Se eles descobrirem vão me mandar embora, vão me jogar para fora
da aldeia, sem eira nem beira, sem nenhuma vontade de prosseguir. Eu quero
contar para alguém, Acy talvez me ajudasse, finalmente consigo lembrar o nome do
meu irmão. Ele sempre ajuda Suia, sempre. Preciso me controlar, parar de
esfregar a mão nos ouvidos, parar de gritar, mas o mundo gira e tudo dói. Tudo
nessa porcaria de mundo quer me levar para baixo, quer me enlouquecer. A culpa
é desses malditos olhos vermelhos que me perseguem na floresta, nos sonhos e
sempre que por algum motivo tolo eu fecho os olhos. A culpa é dele que
desobedeceu as suas próprias regras por mim, por querer a mim.
Os dias de
confinamento acabaram, cerca de quatro noites atrás. Foi quando o espírito da
floresta que me dominava na caverna finalmente me deixou sair, ele me
aconselhou a passar a noite na caverna e sair logo cedo, ir embora quando o sol
raiasse, mas para o meu azar não consegui. Para o meu azar a saudade da família
e a vontade de estar nos braços de minha mãe me dominaram, me fizeram correr,
fizeram com que eu pensasse como criança e não como a mulher que eu deveria ter
me tornado. A mísera mulher que aquelas pinturas corporais deveriam me fazer
enxergar. Pena que meus olhos só conseguem ver o que me dá na telha. O que
tenho vontade.
Saí correndo pela
floresta, feliz, sorrindo, sentindo a terra nos meus pés e as folhas no rosto,
não conseguia perceber como estava escuro, como estava mais escuro que o
normal, nem aquela névoa me fez parar. Talvez desse tempo de voltar para a
caverna se eu tivesse ao menos tido a inteligência de reparar que estava tudo
quieto demais. E quando a natureza para de cantar é melhor se esconder. Melhor
abrir um buraco no meio da terra e fingir que morreu ou você vai acabar
morrendo de uma maneira ou outra.
Nem a Lua estava
presente, acho que esse foi o primeiro sinal que me fez sentir o medo, sentir a
encrenca em que eu me enfiei. Não demorou muito pra o assovio começar, bem
baixinho, até ser alto demais para eu conseguir superar. O desespero tomava
conta de mim, sentei no chão e comecei a chorar. Não era nenhuma mulher, só uma
criancinha que daria tudo para ter sua mãe por perto, ou melhor dizendo, a
força dos braços decididos de seu pai, para a carregar e tirar de lá. Mas não
foi isso que aconteceu, não, seria sorte demais para um ser tão ínfimo. O que
viria seria muito pior.
- Uma moça bonita
não deveria andar pela floresta sozinha tão tarde da noite.
Não sei quanto tempo
ele estava me observando, mas quando levantei o rosto vi um homem lindo, sua
pintura corporal era perfeita, seu corpo esculpido por Tupã. O sorriso era algo
que nenhuma palavra poderia explicar, mas seus olhos eram traiçoeiros, muito
traiçoeiros para um sorriso tão angelical. Mas o que realmente me chamou
atenção foram seus cabelos molhados, ninguém em sã consciência iria no rio tão
tarde da noite, ninguém que eu quisesse realmente encontrar sozinha na
floresta. Então com uma leveza sobrenatural ele vem até mim e senta ao meu
lado.
- Eu poderia te
levar até seus pais linda menina, poderia te dar o mundo se assim você me
pedisse.
O cheiro que vinha
de sua pele era estranho, me fazia lembrar os dias que comíamos peixe dentro de
casa. Podre. Podre demais para quem acabou de sair de dentro do rio. Meus
músculos estavam retesados, eu deveria correr, mas algo me fazia congelar, algo
não queria que eu levantasse.
- Você não vai
conversar comigo? É tão triste ser sozinho, queria tanto alguém para ficar
comigo.
Encostando sua
cabeça no meu ombro sinto com mais força ainda aquele cheiro desagradável de
peixe podre, o cabelo molhado escorre em mim e por mais estranho que pareça
aquela água fria me queima, me trazendo de volta a realidade, trazendo à tona a
minha tão sumida voz.
- O que você quer de
mim?
- Conversar, quem
sabe te convencer que deveria ficar comigo ao invés de voltar para sua família.
Eles não sentiriam a sua falta afinal.
Estou confusa, até
que finalmente a ficha caí, até que finalmente eu me lembro dos meus
ensinamentos, lembro daqueles dias duros dentro de uma rocha. E o sinal de
alerta grita dentro de mim. Não ande sozinha na floresta a noite minha querida,
não vá ao rio, ou o Boto pode te pegar. O boto pode te pegar... Com um
solavanco tiro a cabeça dele de cima de mim e pronto, o feitiço está acabado,
quando a Lua finalmente aparece no céu, tocando a pele daquela demônio, consigo
ver sua verdadeira forma. Os olhos vermelhos, as mãos gigantes com unhas
maiores ainda, os pés pequenos demais para as pernas grandes. Mas aquele
sorriso angelical foi o que mais sofreu transformação, os caninos são gigantes,
vão até o final do rosto dele, do cabelo encaracolado e negro sobrou apenas
peixes demoníacos que saem no lugar. Todos eles querendo me devorar.
- Menina boba,
poderia ter tudo que quisesse mas preferiu a verdade. Preferiu negar um filho
meu, agora vai morrer!
Corro, grito e
choro, mas corro muito mais pela floresta, ele está ao meu encalço, não faz
força alguma, é um jogo divertido para o Boto demônio perseguir meninas pelo
rio Amazonas, que triste fim, ao invés de ter um bebê vou ter um par de dentes
cravado no meu corpo, vou virar comida de peixe no fundo do rio. Deveria ter
ouvido minha mãe.
Quando tudo fica
quieto novamente sinto um alívio, como se finalmente tivesse conseguido enganar
o meu perseguidor. A armadilha já tinha sido montada e como uma presa boba eu
caí, ao olhar para frente, após uma pequena quantidade de árvores vejo o rio,
escuto aquele assobio macabro novamente e lá está ele. Lindo como no começo,
maravilhoso como um lindo índio deveria ser. Ele me estende a mão, sinal da
minha última oportunidade.
- Não tem como
escapar, quando é escolhida nada nem ninguém pode te proteger, venha cá pequena
Iangá, não vamos dificultar mais ainda as coisas para você.
Vou em direção ao
rio, enfeitiçada, aquelas palavras como a linda melodia dos Uruás que minha
família costumava tocar. Estendo a mão e seguro firme no boto. Seguro firme no
meu destino sem mais chorar. Não é pela beleza é pelo medo, pela dor. Pela
vontade de fazer tudo aquilo acabar. Ele me deita nas margens do rio, quando
percebo seu corpo já está sob o meu, forte e quente, o abraço da morte. A dor
não demora a vir, aqueles velhos olhos vermelhos me encaram como se meu medo
desse mais prazer, então desisto de tudo. Espero que tudo acabe logo. Que ele
morra aonde está.
- Boa menina, boa
menina, boooa menina
Cada vez mais
embargada aquela voz me enoja, quero gritar, morder ele até que morra, mas tudo
que consigo fazer é esperar, sentir o corpo dele encima de mim, sentir o vai e
vem daquele demônio, daquele ser quente e forte que me dominou. Fecho os olhos,
quando abro estou segurando o cabelo dele com força e ele ri, ri como um animal
louco e ferido. Desprendendo-se de mim, me deixando sozinha a sangrar, mais uma
vítima do Boto, mais uma vítima da fatalidade de passar próximo de um rio a
meia noite e ser escolhida. Antes de sair ele me beija, algo com tanta ternura
que nem consigo acreditar que veio de um monstro. Tarde demais, eu já te odeio.
Quando acordo a única coisa que me espera é o calor do sol, me dizendo que
acabou, que eu posso levantar e ir embora. Me lavo no rio, com medo dele me
puxar para a profundidade da morte e com esperança ao mesmo tempo.
Depois do estupro do
boto tudo mudou, meu ódio e minha raiva e esse ser maldito que cresce dentro de
mim, que me come por dentro. Que morra também. Morram todos. A árvore já não me
deixa mais em paz, a árvore já não quer mais me ajudar e me segurar dos meus
medos. A noite já está alta e eu volto pro rio, na esperança de encontrar meu
agressor, na loucura de poder finalmente ficar com ele. Estou louca e esperando
um ser demoníaco, mas eu quero ele de volta para mim. Quero o meu demônio
particular.
No rio está tudo
silencioso, igual naquela maldita noite, é um alivio quando sinto as mãos
quentes dele no meu ombro. Penso até em chorar, mas isso seria bobeira demais
para um ser que não tem coração, ou que no final das contas não se importa.
- Eu sabia que você
iria voltar minha pequena menina.
Dizendo isso ele me
leva até o rio em seus braços, diz algumas palavras para a água, grita algumas
coisas para a lua ao seu redor e me solta, sinto a água tomar conta de mim,
sinto as mãos dele me afundando, abro os olhos e vejo ele perto de mim. Ele
cumpriu a promessa, ele me levou para ser feliz, eternamente morta ao seu lado,
eternamente podre dentro de mim.

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